quinta-feira, janeiro 12, 2006

Hoje, mais sonhos, a juntar aos de ontem. É sempre bonita, a materialização etérea do que, norma diurna, são meros apeteceres de imediato engavetados, nas raras vezes em que sequer se dá por eles. Hoje sonhei com mistos de um filme que houvera visto há algum tempo (aquele da Bovarinha, do Manuel d'Oliveira... devem estar a ver qual é, sim, porque somos todos muito entendidos em matéria de cinema português, veneramo-los, aliás deveras.), (e que bela, divina actriz, aquela Leonor Silveira), e com uma viagem de carro, envolto de gente antiga e sem apreço pela minha presença. Mas naturalmente é no pormenor impossível de recriar que está a riqueza por contar. A verosimilidade do decorrer, mesmo nos seus espasmos de ficção pura ou peripsicótica, e ainda mais, a verosimilidade da entranhada comunicação em bermas de conflito. Tudo isto dá aos sonhos uma textura de vida densa de tricotar. Como todos sabem, de resto... Ontem, sonhei com algo mais. Um andar no Chiado, e da janela, uma outra pessoa antiga, em vias de abismal desespero na estrada abaixo, disperso na intensidade da escassez de esgares, e em comunhão com os seus ouvidos surdos e suicidas, em discussão apagada mas acesa com alguém que pretensamente se lhe dirige, saturando-a em acréscimo. Arranco-a por uns momentos da travessia, e desco, e subimos, e descemos, e pelo meio, uma também interacção em insuficiência, contudo esta à partida, e por natureza, sem negatividade, sob um signo de alguma amizade, apenas poluída pelo desenrolar dos nervos, pela tomada de consciência do vago no entendimento, da dispersão das mensagens, e até mesmo do seu processo de criação em mim. Revejo, em aflitiva impotência, a medida dos momentos em transbordo de névoa que não consigo esclarecer. E ao mesmo tempo a vontade de não ser a sobrecarga da cabeça em implosão alheia, a vontade extrema de até poder fazer algo por isso... e a tendencial antítese disto, que é o momento resultante, e a chuva de antecipações de uma presença escusada e a mais. Mas tudo regulado pelo realizador sonho, de forma a não cair em demasia de exageros. Interessante.